Quarta, 04 July 2018 10:58

Crônica de Paulo César Cedran - Jane Eyre: Charlotte Brontë - a mulher como escritora Destaque

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Capa cronicaAs mais de seiscentas páginas da Tradução de Heloísa Seixas do romance Jane Eyre: Charlotte Brontë presente na Coleção Folha Mulheres na Literatura merece o título de Clássico da literatura inglesa do séc. XIX por ainda despertar reflexões que nos são apresentadas em doses homeopáticas sob a condição do que é ser mulher numa sociedade patriarcal.

 

 

 

A impressão de que temos ao realizar uma leitura despretensiosa do romance é que Jane Eyre seria uma sucessão de acontecimentos trágicos na vida dessa heroína. Mas as chaves para a leitura do romance nos permitiria evocar temas que ainda hoje estão presentes na vida de adolescentes e jovens tais como: ódio, violência, maus tratos e abandono. Charlotte Brontë colocou também na personagem Jane a temática que marcou a família Brontë: a questão da morte. Sob esta chave de leitura a temática ganha contornos filosóficos que ultrapassaria o universo de uma jovem órfã e pobre. A própria Charlotte se faz representar, sob este aspecto quando, por exemplo, relata a vista realizada por Jane à sua tia que a tiranizou durante toda a primeira infância. Esta mesmo estando à beira da morte não deixa de ser altiva e dura. Esta percepção da questão da morte mediada pelo transitório e o permanente na existência humana é poeticamente narrada quando Jane constata: “Os objetos inanimados não tinham mudado. Mas os seres vivos haviam sofrido tal transformação que mal era possível reconhecê- los.”(BRONTË, 2018, p.307). Esses seres vivos, “não pessoas” eram suas primas e sua tia que a oprimiam, estas agora se confundiam com os objetos inanimados que não mudaram. Podemos continuar o percurso reflexivo e entender como Jane praticamente vai se curando de suas feridas e ressentimentos pela firmeza e confiança em si mesmo, que usada como escudo lhe permite enxergar a morte seja ela física ou simbólica, como a decorrência de sofrimentos que não mais pudessem lhe afligir. Para lutar por seus objetivos Eyre reafirma a esperança nos sentimentos que tornam as pessoas seres humanos, lembrando que: “Algumas pessoas fazem pouco dos sentimentos verdadeiros e generosos (...). Sentir sem antes julgar é sem duvida alago vazio, mas julgar sem sentimento é um quinhão amargo e áspero demais para ser tragado por um ser humano.”(BRONTË, 2018, p.318).  Assim a personagem afirma também que para vencer os obstáculos e situações de morte, a união deve ser o laço humanizador na luta contra a ruína e adverte que a presença do núcleo familiar mesmo com todos os seus problemas ainda é uma referencia segura quando permeada pelos sentimentos e diz: “ ‘Vocês fizeram bem em se agarrar um ao outro’, falei em pensamento, como se aqueles monstros fossem seres humanos e pudessem me ouvir. ‘Apesar de assim destroçados e crestados ainda há dentro de vocês, creio, um resto de vida, subindo das raízes com sua força e fé. Jamais tornarão a ter folhas verdes, nem verão pássaros fazendo ninho e cantando em seus galhos. O tempo do prazer e do amor para vocês está acabado. Mas não parecem desolados. Pois cada um tem o outro um amigo em quem se apoiar em meio à decomposição’”.(BRONTË, 2018, p.375). Lutar contra essa decomposição faz com que enxerguemos como diz a própria Jane, a natureza como bondosa e gentil, que mesmo reconhecendo os monstros que nos seres humanos nos tornamos ou produzimos não deixa de acreditar na humanidade. Esta condição também coloca um diferencial na própria relação de Jane com o Divino: Jane reconhece em um homem extremamente fiel e temente a Deus justamente o contrário de como ele se apresentava e assim o descreve: “E tive certeza de que St. John Rivers- tão zeloso puro e consciencioso como era- ainda não encontrara a paz de Deus que perpassa a verdadeira compreensão. Nisso ele era como eu pensei, eu e o velado arrependimento por ter perdido meu ídolo e meu paraíso- arrependimento ao qual não me vinha referindo, mas que me perseguia e tiraniza sem piedade.”(BRONTË, 2018, p.472-473). Ainda fugindo ao estilo “água com açúcar” vemos Eyre aconselhando mocinhas apaixonadas e indecisas diante de homens aparentemente gentis e amorosos: “Agora eu entendia que, se me casasse com ele, aquele homem tão cheio de bondade, puro com seu próprio coração sombrio, seria capaz de me matar sem extrair de mim uma única gota de sangue, e também sem sentir qualquer resquício de culpa.”(BRONTË, 2018, p.550). Essa moça arredia, assustada, mas extremamente observadora e confiante toma as rédeas de sua vida e passa a lutar por sua felicidade quando afirma: “ Agora era a minha vez de assumir o comando. Meus poderes estavam agindo em plena força. .”(BRONTË, 2018, p.561). E o romance chega ao fim com a seguinte observação: “Considero-me extremamente abençoada, mas do que seria capaz de expressar em palavras.” (BRONTË, 2018, p.601). Assim, bem ao estilo do clã Brontë, o amor triunfa como um sentimento que pode superar tudo, inclusive na morte e todo o sofrimento e tragédia que permeou a vida destas fortes e decididas mulheres escritoras que fizeram da arte de escrever uma estratégia de luta para sobreviver diante de todo o sofrimento que lhes abateu.

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* Paulo César Cedran é Mestre em Sociologia, Doutor em Educação Escolar pela Unesp de Araraquara, Supervisor de Ensino da Diretoria de Ensino – Região de Taquaritinga, Docente do Centro Universitário Moura Lacerda de Jaboticabal e  Uniesp - Taquaritinga. E-mail Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

 

 

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Lido 851 vezes Última modificação em Quarta, 04 July 2018 11:12

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