Terça, 26 June 2018 14:45

Crônica de Paulo César Cedran - Revivendo “Vinte mil léguas submarinas” Destaque

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Capa paulocedranRetomar a leitura de um livro, vinte anos após tê-lo lido, mostra como as infinitas possibilidades de leitura e interpretações se reconstroem continuamente. 

 

 

Novas perspectivas são indicadas, enquanto outras que até o momento povoavam o mundo de nossa memória se transformam e transmutam para que o lido, ora relido, produza em nós, outro significado.

Passei por esse processo, quando decidi reler o clássico infanto-juvenil do francês Jules Verne, Vinte mil léguas submarinas. No meu imaginário ainda estavam presentes as ilustrações da coleção da Editora Melhoramentos, denominado Clássicos Disney. Uma adaptação da obra, com a finalidade de incentivar o gosto pela leitura por meio de uma linguagem mais indicada ou mesmo mais interessante para um texto infanto-juvenil.

Mais do que o enredo em si da obra, cuja imaginação estimulava o desejo de viajar em um magnífico submarino- O Nautilus, a releitura nos apresentou perspectivas que a vida adulta permite captar nesta obra aparentemente de aventura. A primorosa tradução de Andre Telles para a Coleção Clássicos Zahar de 2014, ganha novo significado também dado pela apresentação de Rodrigo Lacerda para a edição de 2011.

Dele anotamos a seguinte observação que nos permitiu voltar outro olhar à obra. Lacerda afirma que mesmo Jules Verne tendo Alexandre Dumas como um a espécie de padrinho e primeiro conselheiro literário que “(...) suas histórias continuaram sendo recusadas pelos editores.”( Verne 2014, p.7). Esta recusa justificava-se ,pois pela concepção de que suas obras: “ Ora soavam ‘cientifica demais’, ora pessimista demais, associando a infelicidade humana às descobertas da ciência.” ( Verne,2014,p.7).

Sob os enfoques que justificavam a recusa da publicação da obra, não podemos deixar de considerar muito mais que as razões apresentadas, um pessimismo em relação ao próprio ser humano. O Capitão Nemo- ninguém em latim é uma referência à passagem da Odisseia em que o protagonista Odisseu confrontado por um ciclope, o engana dizendo chamar-se Ninguém.

Demonstrando o grau máximo desse pessimismo aliado ao grau máximo da racionalidade humana. Nemo ,aos poucos, é revelado por Verne como um indiano que rompeu com a civilização em busca de vingança. Distante e melancólico Nemo vai conduzindo a viagem por vinte mil léguas submarinas, junto com seus hóspedes-prisioneiros do Nautilus, o professor Aronnax, seu fiel ajudante chamado Conselho e Ned Land, impulsivo e agressivo como convém a um mestre arpoador.

É sobre este quadro melancólico diante da humanidade que nossa releitura ganhou novo significado. Antecipando no meio literário todo o potencial que os mares e oceanos representam para toda a terra sob o aspecto da questão ecológica, Nemo leva às ultimas consequências o dilema em torno da necessidade ou não da manutenção da espécie humana como elemento que poderia contribuir para a preservação do planeta, se mesmo com esse pessimismo Verne consegue prender o leitor que passa a admirar as noções de Biologia marinha nos diálogos quase intermináveis dos personagens ao longo da história, o mesmo Verne nos deixa a sensação mais atual do que nunca, dá incerteza de que a presença humana intensificada pela razão seria capaz de provocar no planeta.

Hoje em pleno séc. XXI, a melancólica cena de Nemo tocando órgão e pensando ainda reverbera em nós: “- Deus todo poderoso! Basta! Basta!” (Verne, 2014, p.498). Não acredito como professor Aronnax, que este desabafo, seja uma confissão de remorso que escapara da consciência daquele homem, mas a própria confissão da certeza de que somente Deus poderia aplacar a destruição provocada pelo homem talvez quem sabe, destruindo o próprio homem.

 cedran

* Paulo César Cedran é Mestre em Sociologia, Doutor em Educação Escolar pela Unesp de Araraquara, Supervisor de Ensino da Diretoria de Ensino – Região de Taquaritinga, Docente do Centro Universitário Moura Lacerda de Jaboticabal e  Uniesp - Taquaritinga. E-mail Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

 

 

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Lido 371 vezes Última modificação em Terça, 26 June 2018 15:46

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