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Sábado, 05 April 2014 09:13

O Golpe de 64: Brasil nunca mais! – por Paulo César Cedran Destaque

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O ano de 1984 foi prodigioso para a política brasileira. O movimento pelas eleições diretas para Presidente chamado “Diretas Já”.

Alçou as ruas do país no emblemático comício na Praça da Sé, em São Paulo, em que milhares de brasileiros lutaram pela eleição direta para Presidente em oposição ao processo organizado por meio do colégio eleitoral.

Como jovem estudante e participante de movimentos comunitários junto à igreja pude acompanhar neste conturbado ano, a greve de trabalhadores ocorrida em Guariba e que se espalhou por outras cidades da região, greve esta que nasceu do desejo de trabalhadores em lutar por condições dignas de trabalho e salário.

Organizando arquivo com recortes de jornal da época veio à minha mente a carismática figura do Padre José Domingos Braghetto que, formado numa época em que o trabalho social era pauta dentro da igreja, tinha orgulho de poder acompanhar seu trabalho junto à Comissão Pastoral da Terra, na cidade de Dobrada. Minha admiração era ainda maior quando vi seu nome figurado na lista de pessoas ameaçadas de morte por estarem lutando em defesa do boia-fria rural na região de Ribeirão Preto.

Esses anos de formação ética e política foram importantíssimos para minha geração que nasceu sob a égide do Regime Militar de 64 e cresceu acompanhando a luta pelo fim da Ditadura do país. Guardo como relíquia o boton que a professora Daise Frare trouxe de São Paulo com os dizeres: Queremos eleger o Presidente. Foi ela também que, em meados de 1985, trouxe quase que clandestinamente um exemplar do livro “Brasil: nunca mais” que já em sua décima edição, relatava de forma nua e crua os porões da Ditadura Militar por meio da análise de documentos oficiais sobre prisões e tortura política no país. Ainda guardo dentro do já amarelado exemplar o encarte que anunciava: “vendidos mais de 100 mil exemplares em 3 meses”.

Disse que o livro chegou até mim de maneira quase clandestina pois havia um perigo justificado quanto ao processo complexo de transição política no país que elegeu Tancredo Neves para Presidente, mas que, de fato, empossou José Sarney, o que deixava um rastro de incerteza do que viria a acontecer com a nossa recém nascida República.

Retomo estes fatos com o mesmo ardor juvenil do qual sinto falta em nossos dias. De 1984 paca cá, nossa cultura política empobreceu e hoje estamos carentes de líderes e de utopias. Para quem acreditar que esta conjuntura política não fez ou faz parte de nossa sociedade local, cito um trecho do livro “Brasil: nunca mais” que em seu capítulo 10, ao tratar da perseguição política envolvendo estudantes afirma: “Há processos pequenos, com poucos réus e voltado para episódios localizados, como a distribuição do jornalzinho ‘O Acadêmico’, na Semana Universitária de Taquaritinga, no interior de São Paulo, (...)”. (BRASIL: NUNCA MAIS, 1985, p. 135).

Também na pequena cidade de Dobrada o então estudante universitário Ubiratan de Mattos foi citado em uma lista de subversivos publicada em um jornal que guardo como uma relíquia sobre a história da cidade. Assim, na data em que o golpe militar completa seus 50 anos, devemos reavivar nossa memória e reverenciar aqueles que lutaram e tombaram para que hoje pudéssemos estar livremente expressando nossas ideias e contando nossa história, pois como nos afirma Kelé Maxacali, índio da aldeia Mikael, em Minas Gerais, e também citado ao final do livro “Brasil: nunca mais”: “Meu pai contou para mim; eu vou contar para meu filho. Quando ele morrer? Ele conta para o filho dele. E assim: ninguém esquece”.

Que a materialização do imperativo escolhido como título da investigação prevaleça: que nunca mais se repitam as violências e perseguições praticadas no Brasil, que 1964 não volte nunca mais.

P.S.: aos interessados no assunto, a monumental obra de Élio Gaspari, publicada em 4 volumes pela editora Intrínseca, intitulados: Volume 1 – As Ilusões Armadas: A Ditadura Envergonhada; Volume 2 – A Ditadura Escancarada; Volume 3: O Sacerdote e o Feiticeiro: A Ditadura Derrotada; Volume 4: A Ditadura Encurralada é um ótimo desafio para compreender o período sob a ótica de dois homens (Geisel e Golbery) que ajudaram a montar e desmontar esse período tão negro da história política do país.

Paulo César Cedran é Mestre em Sociologia, Doutor em Educação Escolar pela Unesp de Araraquara, Supervisor de Ensino da Diretoria de Ensino – Região de Taquaritinga, Docente do Centro Universitário Moura Lacerda de Jaboticabal e da Iesp de Taquaritinga.

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Lido 4677 vezes Última modificação em Sábado, 05 April 2014 09:20

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